Quarta-feira de Cinzas

Jejum, Esmola e Oração: Caminhos da misericórdia

   Em preparação à Páscoa do Senhor, começamos hoje a Quaresma, tempo de conversão. Durante quarenta dias, nos esforçaremos por superar o que não está de acordo com o que Jesus Cristo viveu e ensinou. Se grande é a devastação, maior é a Misericórdia de Deus. Vivamos, portanto, esta Quaresma, acolhendo e transmitindo a Misericórdia e, dentre os inúmeros gestos de conversão, cuidemos uns dos outros.

  A Primeira Leitura ( Jl 2,12-18) nos convida a “Rasgar nossos corações, não somente as vestes”. Este trecho é uma exortação à penitência, ao jejum e à súplica. Logicamente que este apelo sempre dará resultado quando nós nos abrirmos a este triple motivador do tempo quaresmal. Penitência, etimologicamente significa voltar. O Jejum é tão geral que mesmo os recém-casados não são excluídos de sua pia observância. Os sacerdotes articulam este ritmo comunitário ao povo de Israel, e Deus, cioso para “salvar sua boa reputação” junto às nações, teve a compaixão de seu povo.

   Hoje Jesus, no evangelho (Mt 6,1-6.16-18), mostra-nos qual deve ser a nossa atitude quando praticamos obras de penitência (tais como a esmola, a oração, o jejum), e insiste na retidão interior, garantida pela intimidade com o Pai. Era essa a atitude e a orientação do próprio Jesus em todas as suas palavras e obras. Nada fazia para ser admirado pelos homens. Nós podemos ser tentados a fazer o bem para obtermos a admiração dos outros. Mas essa atitude, por um lado, fecha-nos em nós mesmos, por outro lado projeta-nos para fora de nós, tornando-nos dependentes da opinião dos outros.

   Há, pois, que fazer o bem porque é bem, e porque Deus é Deus, e nos dá oportunidade de vivermos em intimidade e solidariedade com Ele, para bem dos nossos irmãos. Estar cheios de Deus, viver na sua presença, é a máxima alegria neste mundo, e garante-nos essa mesma situação, levada à perfeição, no outro.

   Converter-se “ao Evangelho”! O Evangelho para nós, mais do que um livro, é uma pessoa, Jesus Cristo. É necessária a “conversão” ao verdadeiro conhecimento de Cristo. Não um conhecimento intelectual, como aquele que se obtém nas aulas de teologia. É preciso um conhecimento de fé, uma experiência viva, como aquela de fala S. Paulo: “Na verdade, em tudo isso só vejo dano, comparado com o supremo conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Põe Ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo … Assim poderei conhecê-lo , a Ele, à força da Sua Ressurreição e à comunhão nos seus sofrimentos, configurando-me à Sua morte, para ver se posso chegar à ressurreição. Não que eu já tenha alcançado a meta, ou que já seja perfeito, mas prossigo a minha carreira para ver se de algum modo a poderei alcançar, visto quejá fui alcançado por Jesus Cristd’ (Fil 3, 8.10-13).

   A Segunda Leitura (cf. 2 Cor 5,20-6,2) fala que o tempo da quaresma é “o tempo propício” de conversão e de mudança de vida. Apaixonado pelo “ministério apostólico da reconciliação”, Paulo exorta os coríntios a aproveitar a reconciliação oferecida por Cristo, que assumiu nosso pecado, e a não deixar passar a oportunidade, já que agora é o tempo oportuno de conversão.

   Portanto, Façamos nesta Quaresma as obras de penitência que pudermos. Mas façamo-las na intimidade e na presença do Senhor, que havemos de procurar na oração, na Eucaristia, na comunidade. Não esqueçamos a ascese, especialmente a que nos é exigida pelo fiel cumprimento dos nossos compromissos com Deus e com os irmãos.

   As cinzas sobre a cabeça devem despertar em nós a consciência de que todos procedemos do pó. O reconhecimento dessa humilde condição humana nos unifica e quebra toda pretensão de poder, de vaidade e de sobreposição aos outros. Que novos seres humanos, mais solidários, renasçam dessas cinzas!

+Dom Junior de Jesus (Bispo Eleito)