1º DOMINGO DA QUARESMA

   “Fala com sabedoria, ensina com amor” (cf. Pr 31,26) – CF 2022

   Ao iniciar nossa caminhada quaresmal rumo à Páscoa do Senhor, somos, neste primeiro domingo, convidados a enfrentar e vencer as tentações. Não as venceremos sozinhos quando elas se apresentam cotidianamente a nós. Na força do Espírito e acompanhados por Cristo entremos no deserto e ouçamos a voz do Senhor!

   A primeira leitura (Dt. 26,4-10) nos diz que o gesto de oferecer os primeiros produtos da terra era, portanto, acompanhado de uma “confissão de fé”. No fundo, todo este “credo” que recapitula as antigas intervenções do Senhor em favor do seu Povo (eleição dos patriarcas, êxodo, dom da terra) tem como objetivo último afirmar e reconhecer que essa Terra Boa onde Israel construiu a sua existência é um dom de Deus; e não só a terra, mas tudo o que cresce sobre ela, é produto do amor de Deus em favor do seu Povo. É isso que significavam e simbolizavam as primícias que o israelita depositava sobre o altar, por meio do sacerdote.

   Tudo o que recebemos é de Deus e não nosso. Somos apenas administradores dos dons que Deus colocou à disposição de todos os homens. A nossa relação com os bens – mesmo os mais fundamentais – não pode, pois, ser uma relação fechada e egoísta: tudo pertence a Deus, o Pai de todos os homens e deve, portanto, ser partilhado. Como nos situamos face a isto? Os bens que Deus colocou à nossa disposição servem apenas para nosso benefício exclusivo, ou são vistos como dons de Deus para todos?

   As três tentações que são sofridas por Jesus e relatadas no Evangelho de hoje (cf. Lc. 4,1-13) são as três grandes tentações que sofrem os cristãos:

   A primeira tentação sugere que Jesus poderia ter optado por um caminho de facilidade e de riqueza, utilizando a sua divindade para resolver qualquer necessidade material… No entanto, Jesus sabia que “nem só de pão vive o homem” e que o caminho do Pai não passa pela acumulação egoísta de bens. 

   A segunda tentação sugere que Jesus poderia ter escolhido um caminho de poder, de domínio, de prepotência, ao jeito dos grandes da terra. No entanto, Jesus sabe que esses esquemas são diabólicos e que não entram nos planos do Pai; por isso, citando Dt 6,13, diz que só o Pai é o seu “absoluto” e que não se deve adorar mais nada: adorar o poder que corrompe e escraviza não tem nada a ver com o projeto de Deus.

   A terceira tentação sugere que Jesus poderia ter construído um caminho de êxito fácil, mostrando o seu poder através de gestos espetaculares e sendo admirado e aclamado pelas multidões (sempre dispostas a deixarem-se fascinar pelo “show” mediático dos super-heróis). Jesus responde a esta proposta citando Dt 6,16, que manda “não tentar” o Senhor Deus: aqui, “tentar” significa “não utilizar os dons de Deus ou a bondade de Deus com um fim egoísta e interesseiro”.

   Apresentam-se, portanto, diante de Jesus, dois caminhos. De um lado, está a proposta do diabo: que Jesus realize o seu papel na história da salvação como um Messias triunfante, ao jeito dos homens. Do outro, está a escolha de Jesus: um caminho de obediência ao Pai e de serviço aos homens, que elimina qualquer concepção do messianismo como poder.

   O texto da segunda leitura (Rom 10,8-13) pertence à primeira parte da carta (Rom 1-11); o título desta parte pode ser: o Evangelho de Jesus é a força que congrega e que salva todo o crente (judeus e pagãos). Depois de demonstrar que todos os homens vivem mergulhados num ambiente de pecado (Rom 1,18-3,20), mas que a “justiça de Deus” dá a vida a todos sem distinção (Rom 3,21-5,11) e que é em Jesus que essa vida se comunica (Rom 5,12-8,39), Paulo reflete sobre o desígnio de Deus a respeito de Israel (Rom 9,1-11,36).
   Neste texto, em concreto, Paulo põe em relevo aquilo que une judeus e gregos: a mesma fé em Jesus Cristo e na proposta de salvação que Ele traz. Quando nos reunimos em assembleia e proclamamos Jesus como o nosso “Senhor”, somos uma verdadeira comunidade de irmãos, sem “judeu nem grego”, ou continuamos a ser uma comunidade dividida, com amigos e inimigos, ricos e pobres, negros e brancos, santos e pecadores, superiores e inferiores?

   Portanto, as tentações de Jesus resumem bem, todas as tentações que enfrentamos nessa vida, sendo ocasiões oportunas para provar a nossa fidelidade ao projeto de Deus e a nossa capacidade de usarmos com sabedoria a liberdade que o próprio Deus nos concedeu. É assim que devemos buscá-lo nesta quaresma, através do jejum, da oração e da esmola, que nos ajudará no processo de conversão aproveitando ao máximo todos os momentos que a vida nos oferece, porque como vimos na liturgia da quarta-feira de cinzas, este é o tempo favorável em que o Senhor se deixa encontrar. Importante também lembrar que as tentações evoluem, quanto mais resistência e força tivermos, mais forte ela irá voltar, o diabo sempre acha que no segundo embate ele levará vantagem.

   O texto afirma que o tentador deixou Jesus para voltar em outro tempo, que viria a ser na cruz do calvário onde se consolidou a vitória da Cruz, sinal da Fidelidade de Jesus ao Pai. Portanto, não descuidemos da retaguarda!

Dom Junior de Jesus (Bispo Eleito)