29º DOMINGO DO TEMPO COMUM

   A liturgia de hoje mostra-nos que, a caminho de Jerusalém, Jesus vai advertindo seus discípulos sobre o destino doloroso que o espera a ele e aos que seguem seus passos. A inconsciência dos que o acompanham é incrível. Ainda hoje continua se repetindo.

   A primeira leitura tirada do profeta Isaias 53,10-11, apresenta-nos a figura desse servo insignificante e desprezado pelos homens, mas através do qual se revela a vida e a salvação de Deus, o nosso texto lembra-nos que Deus, seguindo a sua lógica muito própria vem, tantas vezes, ao nosso encontro na pobreza, na pequenez, na simplicidade, na fragilidade. Conscientes desta realidade, poderemos perceber a presença de Deus ao nosso lado nos pequenos gestos que todos os dias testemunhamos e que nos dão esperança, nas coisas simples e banais que nos enchem o coração de paz, nas pessoas humildes que o mundo despreza e marginaliza, mas que são capazes de gestos impressionantes de serviço, de partilha, de doação, de entrega. Não nos deixemos enganar: Deus não está naquilo que é brilhante, sedutor, majestoso; Deus está na simplicidade do amor que se faz dom, serviço, entrega humilde aos irmãos e irmãs.

   O Evangelho de Marcos 10,35-45, nos indica que tal como outros discípulos, a mãe de Tiago e João está confusa sobre o Reino que Jesus veio estabelecer, e pede por eles para que tenham uma boa posição em seu Reino. Jesus aproveita seu pedido para enfatizar que o serviço é o verdadeiro sinal de grandeza e a medida para julgar se uma pessoa é digna de compartilhar o poder e a glória de Deus.

   A autoridade da comunidade cristã, tal qual a de Jesus, vem do amor, única força capaz de gerar um serviço interessado no bem dos outros. Daí o grande contraste entre o líder servidor e o que usa seu poder para oprimir e explorar o povo. Chamados a seguir o Filho do Homem “que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida”, os discípulos devem dar testemunho de uma nova ordem e propor, com o seu exemplo, um mundo livre do poder que escraviza.

   A segunda leitura tirada de Hebreus 4,14-16, diz-nos que os seguidores de Cristo são, naturalmente, convidados, a assumir o seu exemplo. Assim como Cristo, por amor, vestiu a nossa fragilidade e veio ao nosso encontro, também nós devemos, despindo-nos do nosso egoísmo, da nossa acomodação, da nossa preguiça, da nossa indiferença, ir ao encontro dos nossos irmãos, vestir as suas dores e fragilidades, fazer-nos solidários com eles, partilhar os seus dramas, lágrimas, sofrimentos, alegrias e esperanças.

   Portanto, na comunidade cristã encontramos também, com muita frequência, a tentação de nos organizarmos de acordo com princípios de poder, de autoridade, de predomínio, à boa maneira do mundo. Sabemos, pela história, que sempre que o cristianismo tentou esses caminhos, afastou-se da sua missão, do seu testemunho pouco credível e tornou-se escândalo para tantos homens e mulheres bem intencionados. Por outro lado, testemunhamos todos os dias, nas nossas comunidades cristãs, como os comportamentos prepotentes criam divisões, rancores, invejas, afastamentos. Nós, os seguidores de Jesus, não podemos, de forma alguma, pactuar com a lógica do mundo; e uma igreja que se organiza e estrutura tendo em conta os esquemas do mundo não é a igreja de Jesus.

+Dom Júnior de Jesus (Bispo Eleito)