II DOMINGO DA QUARESMA

 Nesta Pandemia devastadora, continuemos comprometidos generosamente com o cuidado de si e dos outros.

    No último domingo a Igreja nos convidou à vitória sobre a tentação. Hoje, a Palavra de Deus nos transmite força e confiança para permanecermos no caminho indicado por Jesus. Esta firmeza de nos levar a crer que mal algum é mais forte que o amor de Deus e, por isso, somos capazes de perseverar na fidelidade, mesmo quando tudo ao nosso redor indicar o contrário. Se assim agirmos, é porque, a todo momento de nossa existência, somos amparados e fortalecidos pelo Senhor Jesus, que tanto compreende nossa fragilidade. Cristo é nossa esperança!

   A primeira Leitura tirada de (Genesis 22,1-2.9-13.15-18), apresenta-se a figura de Abraão como paradigma de uma certa atitude diante de Deus. Abraão é o home de fé, que vive num constante escuta de Deus, que aceita os apelos de Deus e que lhes responde com a obediência total, mesmo quando os planos de Deus parecem ir contra os seus sonhos e projetos pessoais. Nesta perspectiva, Abraão é o modelo do cristão que percebe o projeto de Deus e segue de todo coração.

   O Evangelho de (Marcos 9,2-10), nos apresenta a passagem da transfiguração. Pedro tinha confessado que Jesus é o Messias, agora o Pai manifesta quem é Jesus: o seu Filho Amado. O fato de Jesus tomar consigo Pedro, Tiago e João já indica que é um momento importante do seu ministério. A montanha era, no Antigo Testamento, o lugar da manifestação de Deus. Na transfiguração, Jesus se manifesta na sua realidade mais profunda, na sua divindade. É manifestada a sua glória. Os antigos padres da Igreja interpretavam a veste brilhante, luminosa de Jesus como a Igreja. A Igreja é esta veste luminosa de Cristo. Moises e Elias significam o Antigo Testamento que se cumpre em Jesus; compreende-se que Jesus não pode ser entendido sem o Antigo Testamento. Eles conversam com Jesus. São Lucas vai dizer que conversavam sobre o êxodo de Jesus que aconteceria em Jerusalém, isto é, sobre sua morte. Pedro, diante daquela cena maravilhosa quer que fiquem ali, mas não sabia o que estava dizendo. O Pai da nuvem manifesta quem é Jesus Jesus: “Este é o meu Filho Amado, escutai o que ele diz”. Jesus é o Filho Amado. Isaac é filho amado de Abraão. Deus poupa o filho de Abraão, mas por amor a nós não poupou seu próprio Filho. O Pai nos manda ouvi-lo. Como ouvi-lo? Ele continua a nos falar hoje, através da sua Palavra, através das Escrituras. São Jeronimo dizia que “Ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo”. Este texto nos mostra a importância da Palavra de Deus na nossa vida e na vida da comunidade, pois o Senhor continua a nos falar hoje. Ao descerem da montanha, Jesus “ordenou que não contassem a ninguém até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos.

   A segunda leitura de (Romanos 8,31-34) lembra aos cristãos que Deus os ama com um amor imenso e eterno. A melhor prova desse amor é Jesus Cristo, o Filho amado de Deus que morreu para ensinar ao homem o caminho da vida verdadeira. Sendo assim. O cristão nada tem a temer e deve enfrentar a vida com serenidade e esperança.

   Portanto, num outro monte, o Tabor, Deus novamente se manifesta, desta vez não a Abraão, mas a Pedro, Tiago e João. Num momento de intimidade com o Pai, Jesus se apresenta no brilho de sua glória divina, visão que impressiona e enche de encanto os discípulos que o acompanhavam. Era bom estar ali. Esta habilidade, tão fundamental a quem deseja ser discípulo do Senhor, foi deles exigidos novamente diante do máximo de violência, injustiça e humilhação que Cristo sofreu na cruz. O mesmo medo, hesitação e sofrimento que tomaram o coração de Abraão certamente trouxeram pavor aos discípulos que testemunharam a lacerante execução de seu Mestre. Precisaram ser fortes, unidos e destemidos para enxergar também ali a ação da Mão do Pai que, para além das aparências, agiu no Filho, pela força do Espirito manifestando a gloria da ressurreição.

   Como Bispo Eleito da Igreja Vetero Católica Fidelitas questiono, nesta pandemia devastadora, o que significa para nós, os discípulos da atualidade, esta capacidade de olhar além? Significa nutrir um coração sensível à graça do alto, comprometido generosamente com o cuidado de si e dos outros. Passa também pela humildade de reconhecer o potencial de morte e sofrimento presente num vírus que nossos olhos são incapazes de enxergar. Negar a realidade, negligenciar os cuidados básicos, desdenhar da ciência definitivamente não são atitudes que se esperam de um seguidor de Jesus Cristo. Saber olhar além e antecipar-se no cuidado solidário pela vida é compromisso do qual o cristão jamais pode abrir mão.

+Dom Junior de Jesus